Artigo publicado em: 09/12/13 3:38 PM


Maléfices: um RPG de terror na Europa

malefices-le-jeu-de-role-qui-sent-le-soufre-boite-de-base-jeux-de-role-848460686_MLEnquanto estudo na França, vou escrevendo aqui pro D30 alguns artigos sobre o que vejo por aqui. E o primeiro deles vem de um RPG que há muito tempo queria experimentar… Maléfices. Uma espécie de resposta francesa ao sucesso de Call of Cthulhu, nos anos 80.

Terror é meu Gênero favorito de RPG, e muito antes de mestrar arenas de combate nos encontros D30 o que eu mais fazia era reunir amigos para noites macabras de Cthulhu.

Bem, não é muito diferente aqui na França, apesar de terem D&D traduzido como no Brasil, o RPG mais vendido nas lojas são novas edições de L’Appel de Cthulhu, que como vocês já adivinharam é o bom e velho “Chamado de Cthulhu”. Não apenas o livro básico, mas todos os suplementos estão disponíveis em francês. O Rastro de Cthulhu traduzido se chama simplesmente “Cthulhu” aqui na França, e também está nas lojas.

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Sua alma nos interessa…
jogue Maléfices

Maléfices já de início fala uma coisa difícil para 1984, o livro sugere que será uma experiência melhor se o jogo for feito com grupos mistos, de homens e mulheres. Como estavam avançados esses franceses, não é?

Bem, mas por que esse jogo é uma “resposta” a Call of Cthulhu? Claro que isso tem um sentido mercadológico, ele foi lançado pela maior editora francesa da época, a Jeux Descartes. Mas o que achei mesmo foi uma resposta mais simples, Maléfices é sobre um terror mais próximo.

Eu adoro os Mythos (quer dizer, eu gosto da ideia, não saio cultuando eles não, ok?), mas realmente sempre achei estranho que os personagens se confrontassem com uma verdade escondida, mas muito escondida mesmo, quando os mesmos temas podem ter cores mais próximas.

Então, em Maléfices os cultistas cultuam mesmo é o Diabo, as aparições são fantasmas, e o jeito de combatê-los são exorcismos e sessões espíritas. Água benta pode funcionar, assim como vodum e as parafernálias do início do Século XX também, como câmeras de fotografar fantasmas, espectômetros.

Aliás, Maléfices se passa nesse tempo, entre 1870 e 1920, mas poderia ser adaptado para qualquer época, essa só é mais “crente” no sobrenatural. Vi aqui um filme que apesar de se passar nos anos 1970 combina muito com o cenário, Invocação do Mal. Deve passar aí agora em setembro.

Mas por que os franceses usaram esse tema? Você precisa andar pelas cidades da Europa para entender. Sempre há algo antigo, que inspira você a pensar no medo que as pessoas devem ter tido na época. Em Paris, não é só a Notre Dame, com suas gárgulas, mas as fundações das muralhas da cidade embaixo do Louvre, as catacumbas com túneis de 7 km, e tem até uma terma romana original, ao lado da Sorbonne. E Napoleão trouxe uma pirâmide inteira para colocar num museu aqui, imagina o tanto de urucubaca?

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A ascenção de Dagoberto, Catedral de Saint-Denis

Na Europa esse mal humano está mais presente que o mal natural. O maligno está na história da Inquisição, dos castelos, traições, assassinatos e revoluções. Catarina de Médici e Leonardo Da Vinci estão enterrados na França, assim como muitos místicos famosos que viveram e passaram por aqui. Sobra histórias para jogos de terror!

E quando o Lovecraft fala das suas criaturas e cultistas, muitas vezes chama eles de blasfemadores. Mas como li num artigo recentemente, eles blasfemam contra o quê? Contra a geometria mais certamente, porque Deus ou qualquer religião tem pouco lugar nas histórias dele.

Talvez porque Lovecraft fosse ateu e entusiasta da modernidade, mas também talvez seja para tornar a coisa toda mais palatável para um público americano e puritano. Você diz que o Mal Eterno paira sobre nós, mas em vez do Capeta, você diz que é Cthulhu.

Bem, em Maléfices não tem isso não, você vai viver um pavor do tipo Exorcista, ou vai descobrir que o seu antepassado era um cultista que conseguiu preservar a própria alma para poder habitar seu corpo, mas ele fez isso com magia negra que aprendeu no ocultismo ou com demônios, não com criaturas de outra galáxia. O subtítulo de Malefices é “Um RPG que cheira a enxofre”.

Maléfice é uma palavra difícil de traduzir, viu? O sentido mais comum é azar, ou o seu cognato em português, má sorte. Vem da mesma origem da palavra malícia, e quer dizer Atos de Maldade ao pé da letra, mas também quer dizer satanismo, encantamento, possessão, efeito mágico, e sortilégio.

Mas claro, é um jogo dos anos 80. Ele ainda está fixado em atributos que vamos usar pouco. Apesar de serem poucos, e bem gerais. Imaginem vocês, Maléfices é um jogo focado na história e na narrativa já nos anos 80. Tudo que sua personagem tem é Constituição, Aptidão Física, Habilidade (destreza), Cultura Geral, Percepção. Depois o sistema criou uma organização, o Clube Pitágoras, que combate as Trevas e ao qual sua personagem estará ligado de alguma forma.

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A parte interessante é que em vez de Sanidade, a personagem tem dois atributos opostos: Espiritualidade x Abertura da Mente. Um é a Fé da personagem no que quer que seja que ela acredite. O outro é a sua capacidade de compreender e racionalizar as experiências do jogo. Se a Espiritualidade acabar, sua personagem pode ficar à mercê das forças ocultas, mas se perder a Abertura da Mente, perderá sua única defesa contra a loucura.

Por fim, fazer uma personagem termina num jogo de Tarot, uma versão chamada de Jogo do Destino e preparada por uma vivente francesa famosa na época especialmente para o jogo. São 28 cartas com suas interpretações, a personagem escolhe 4, e o mestre mais uma, sem revelar o que é.

De acordo com essa leitura, a personagem sabe seu destino, o que espera por ela, sem saber a última carta, uma espécie de regente sobre sua sorte. A Bia, tadinha, quis fazer uma personagem com Espiritualidade alta, mas vieram as cartas e a transformaram numa pessoa ainda mais racionalista que crente. O que espera Agnes Thalbor no futuro? Veja foto.

Sobre ML

M L escreveu 138 posts neste blog.

Gosta de fazer intriga em seus jogos, botar medo nos jogadores, e está sempre à procura do sistema perfeito de RPG.

Comments

  1. Parece bem interessante mesmo, tomara que chegue uma cópia no Brasil daqui alguns meses kkkkk

  2. A produção de RPG na França é incrível, ou como eles preferem chamar, JDR (jeu de rôle; jogo de representação; como os espanhois também fazem). Acompanho há alguns anos, conheci Paris em 2011 e comprei o Les Ombres d’Esteren.

    Aguardo mais postagens, e bons estudos!

    Gilson

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