A saga do bruxo Geralt de Rívia

Andrzej Sapkowski narra as aventuras do bruxo que sofreu uma mutação quando criança e foi treinado até a vida adulta para ser um caçador de monstros. De aparência corpulenta, com cabelos compridos inteiramente brancos e fala irônica tornam Geralt de Rívia um clássico anti-herói que mescla as aptidões mágicas de feiticeiro com as habilidades de um guerreiro frio e calculista.

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O Último Desejo

Neste primeiro volume da saga formada por sete livros, Andrzej Sapkowski nos apresenta seu personagem mais famoso, o bruxo Geralt de Rívia, em seis contos que não possuem relação entre sí, a não ser por sete escritos curtos entre as histórias que servem para contextualizar e conectar a narração em lapsos de tempo que são interrompidos pelas lembranças do bruxo.

o-ultimo-desejoA voz da razão 1 à 7 – Podemos supor que estes interlúdios são, na verdade, a história principal deste livro, uma vez que os demais contos se passam todos no passado, enquanto esse texto dividido pelas sete partes mostra que o que está “acontecendo” com Geralt. Esse intervalo entre um conto e outro recebeu o nome de “A voz da razão”. A situação revela Geralt passando uma temporada no templo da deusa Melitele, se recuperando de ferimentos de combate. Durante este período, o personagem avalia acontecimentos, o que serve para dar o tom inicial para o respectivo conto.

O Bruxo – A narração nos leva até um reinado chamado Wyzim que tem bastante influência política na região e um grande problema de realeza para resolver: uma maldição fez com que a recém-nascida princesa se transformasse em uma estrige, uma espécie de vampira poderosa. Aqui o trabalho do bruxo consiste em tentar desfazer a maldição, mas sem matar a vampira caso a técnica falhe, sob pena dele próprio ser executado por matar a princesa. Na minha opinião, este é o conto que melhor representa a atmosfera dark fantasy! É possível sentir o clima soturno que envolve o castelo abandonado onde está o sarcófago da estrige ao mesmo tempo em que a ausência de barulho durante a noite de lua cheia nos faz ouvir diversos sons estranhos. Já neste primeiro conto começamos a ter noção do sarcasmo que permeia todos os diálogos de Geralt, além de seus métodos de caça e combate.506_max

Um grão de veracidade – Durante o percurso por uma trilha na floresta com Plotka, seu cavalo, o bruxo de Rívia descobre os cadáveres de duas pessoas, um mercador e uma jovem donzela. O mistério aumenta devido o detalhe incomum de ter uma rosa azul pregada na roupa da moça. Um jardim com as mesmas flores cresce em um castelo aparentemente abandonado próximo dali, o que leva a uma busca que revela o senhor daquele local: um monstro com poderes mágicos. Após uma conversa inusitada entre o bruxo e o monstro, uma grande reviravolta toma conta da narrativa. Depois de um ótimo início, achei esta história uma das mais fracas, principalmente pelo tom à lá bela e a fera dos contos infantis. Apesar da excelente cena final, onde uma violenta luta se desenrola à base de muito sangue, no geral não me agradou muito.

O mal menor – Uma antiga profecia chamada de Maldição do Sol Negro leva o conselho de magos de um reinado a adotar uma medida drástica: caçar, aprisionar, torturar e matar jovens mulheres que tenham supostas ligações com a profecia, mesmo sem provas de bons resultados dessa ação, tudo na tentativa de evitar o que eles consideram um futuro catastrófico. Uma jovem consegue fugir e jura vingança contra o mago que lhe causou anos de sofrimento. Ainda não consegui decidir se gostei ou não deste conto, pois ele também carrega marcas profundas de antigas histórias como a dos sete anões, o que me desagradou muito, porém a interação entre a jovem Renfri e Geralt está entre os melhores e mais divertidos diálogos do livro. Outro ponto a favor é a interessante história sobre a maldição e a explicação de como os magos se comportam (ambiguamente) nestas situações.

The_witcher_wallpaper07_1024x768Uma questão de preço – Na corte de Cintra, onde governa solitariamente a rainha Calanthe, é oferecido um jantar para nobres e valorosos cavalheiros de reinados próximos como uma oportunidade de conhecer a princesa Pavetta. O objetivo é oferecer a mão da garota ao candidato que mais vantagens trouxer ao reino de Cintra. A convite da própria rainha, Geralt participa do jantar para uma missão especial, que pode mudar o destino dos reinos ali representados. Essa é uma ótima história que fala muito mais sobre as intrigas palacianas, guerras entre reinos próximos e acordos políticos, do que necessariamente sobre matar monstros. Se em outro conto pudemos ver a atuação dos magos, agora temos uma amostra de uso dos poderes xamãs. O destaque fica por conta do clima de suspense e tensão, uma vez que Geralt é contratado para um serviço sem saber do que se trata, sua única orientação é agir rápido! O final do jantar traz grande reviravolta para a missão do bruxo.

Os confins do mundo – Acompanhado pelo bardo e amigo Jaskier, o bruxo segue viagem por um caminho que é considerado a parte mais longe do mundo, onde a história diz que há séculos passados os elfos foram expulsos de suas terras pelos homens. Um vilarejo local tem problemas com uma criatura que eles dizem ser um diabo e ao investigar, os dois andarilhos são presos e espancados por elfos das montanhas. Este é um excelente conto, que apesar de começar mais arrastado e desinteressante, desperta a atenção com o surgimento dos elfos. Todas as cenas que ocorrem posteriormente são excelentes, com destaque para a conversa entre Geralt e Filavandrel (o líder dos elfos) que apresenta uma visão amargurada e vingativa dos elfos sob a crueldade do ser humano. É um contexto bem diferente para criaturas tão comuns nas histórias fantásticas, mas abordado de uma forma genial por Sapkowski.

O último desejo – Neste conto, que também dá nome ao livro, mais uma vez a amizade entre Geralt e Jaskier rende uma aventura, quando uma lâmpada mágica é “pescada” pela dupla. Uma espécie de gênio ataca os dois e deixa Jaskier à beira da morte, obrigando Geralt a procurar ajuda em uma cidade próxima, onde consegue receber os préstimos da poderosa feiticeira Yennefer. A personagem é importante parte da história do bruxo, mas que não se revela completamente neste livro. A narração é bem divertida tanto pela constante tensão sexual entre os dois, quanto pelas ótimas tiradas do bardo falastrão que é um personagem bastante divertido. Acredito que o final poderia ter sido melhor construído, uma vez que eleva o clímax se apoiando em questões que não chega a resolver com o final do conto. Entendo que seja um método de instigar a atenção do leitor para o próximo livro mas, particularmente, achei desnecessário.

 

Andrzej Sapkowski

AndrzejNascido na Polônia pós II Guerra Mundial, em 21 de junho de 1948, Andrzej Sapkowski é economista por formação, mas desde 1986 quando conseguiu publicar seu primeiro conto na maior revista polonesa sobre literatura do estilo, chamada Fantastyka, sua popularidade cresceu como escritor. O conto “Wied?min” recebeu boas críticas, gerando assim mais histórias com a mesma abordagem de contos de fantasia medieval agressivos como o Conan de Robert Howard, mas com elementos mágicos mais evidentes do que nas obras de Tolkien, com toques de terror mais ao estilo “dark fanatasy” tão em moda nos jogos online hoje em dia, como Dragon Age. Interessante ressaltar que a saga do personagem principal, Geralt de Rívia, rendeu uma série de games para computador e outras plataformas.

Acesso os links para o trailer de cada jogo:

The Witcher 1

The Witcher 2

The Witcher 3

1363791655_Sapkowski Andrzej_761_29_Lodz_1999_As obras lhe renderam diversos prêmios de literatura, chegando à década de 1990 como um dos mais premiados escritores da Polônia. Por mais de cinco vezes ganhou o “Janusz A. Zajdel Award”, maior prêmio polonês para escritores de ficção científica e fantasia. As obras de Sapkowski trazem um mundo de fantasia obscura, onde questões éticas e morais estão inseridas em um cenário de humor negro, onde a ambiguidade sempre paira pelo ar. Um dos pontos mais positivos de seus escritos – talvez a parte mais interessante – é o cenário mais voltado às paisagens eslavas povoadas por criaturas tradicionais da mitologia do leste europeu com enfoque na lendas escandinavas.

A literatura do polonês é rica em detalhes das cenas de ação e movimentos espetaculares, mas não privilegia tanto as descrições de lugares e criaturas (o que é lamentável, pois os monstros da mitologia russa permeiam por todas as histórias e dão um toque mais original à narração). Além disso, alguns conceitos são, de certa forma, inovadores para as gerações acostumadas com mundos medievais fantásticos, como a ideia de bancos controlados por gnomos, o uso de cartas de crédito (algo similar aos cheques que um dia foram populares no Brasil) e afins. As raças das criaturas ainda nos trazem elfos e anões, porém sob uma visão um pouco diferente do habitual como os elfos remeterem a criaturas espiritualizadas e intelectualmente superiores aos homens, mas fisicamente fracos para rivalizar aos humanos, vivendo diversas formas de preconceito.

Desde sua aparição no mundo da literatura fantástica, os livros de Sapkowski foram traduzidos para vários países, principalmente pela Europa, onde se tornou best-seller com mais de um milhão e meio de exemplares vendidos só do primeiro livro. O país que melhor acolheu a literatura do polonês foi a Espanha, onde ele mantém seus maiores e mais fiéis seguidores. Apesar do barulho internacional já algumas décadas, no Brasil o público ainda não descobriu suas histórias. Ainda assim, em 2011 a editora Wmf Martins Fontes, publicou “O Último Desejo”, primeiro livro de Sapkowski (originalmente lançado em 1993 sob o título de Ostatnie Zyczenie) e dois livros sequentes “A Espada do Destino” e “O Sangue dos Elfos”, sendo que por enquanto ainda ficamos sem a tradução dos outros quatro livros da saga.

Entre 1993 e 1995 foram criadas seis histórias em quadrinhos adaptadas dos contos. Os roteiros foram feitos por Maciej Parowski, enquanto Boguslaw Polch ficou a cargo da arte, além da supervisão do próprio Sapkowski. Ainda sobre a criação de Andrzej, em 2001 foi realizado um filme, chamado “The Hexer”, dirigido Marek Brodzki e com Michael Zebrowski no papel de Geralt. No ano seguinte, é feito um seriado para televisão que adaptava alguns contos mas ambos acabaram não emplacando entre fãs nem agradaram a crítica especializada, durando apenas uma temporada com 13 episódios.

Atualmente, Sapkowski mora e trabalha em Lódz, na Polônia.

 

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É importante que se faça menção à tradução brasileira feita por Tomasz Barcinski, não só pelo excelente trabalho em traduzir os escritos direto do polonês, mas pelo empenho na publicação dessas histórias. Tomasz Barcinski foi a pessoa quem trouxe a ideia para a editora Wmf Martins Fontes traduzir o livro, não por coincidência, a mesma editora que publicou diversos livros do estilo aqui no Brasil. O fato é que a editora topou a empreitada e Tomasz realizou a tradução dos três primeiros livros – os que a editora comprou – e dependendo da evolução das vendas, os outros quatro volumes poderão sair aqui. De acordo com Barcinski, a editora está animada com os resultados já alcançados e reafirma o compromisso de adquirir o restante da saga.

Durante uma entrevista em 2012, o tradutor explicou sobre o processo de adequação da linguagem e alguns termos para o português como “Wied?min que em polonês não existe pois é uma versão masculina para bruxa, da mesma forma que Witcher, que em inglês não existe pois deriva da palavra witch que significa bruxa, mas em português bruxo é uma palavra que existe. Por isso, tive que entrar em contato com o próprio autor pedindo orientações, daí o Sapkowski gostou da versão brasileira e deixamos como bruxo mesmo” afirmou Barcinski.

Para o tradutor, ao ler Sapkowski é fundamental observar as entrelinhas, pois “seu humor inteligente permite fazer críticas a questões ambientais, como a devastação de florestas, e também, fazer alusão a uma região de cavaleiros negros com os membros da SS do regime nazista, que vestiam roupas negras e ostentavam símbolos de caveiras” acrescentou.

Uma curiosidade sobre o sucesso do autor e a influência de suas obras no leste europeu é explicada pelo tradutor, que contextualiza o momento político e social pela qual vivia a região. Barcinski, diz que na época da II guerra, a Europa oriental não fazia o pagamento de direitos autorais para a produção estrangeira, assim os países da Europeu oriental não tiveram acesso ao lançamento aos livros de Tolkien como o Senhor dos Anéis. A grande sacada de Andrzej, foi criar uma mitologia eslava que suprisse a carência desse tipo de literatura atrás da “cortina de ferro” europeia.

De origem polonesa, nascido em Varsóvia no dia 27 de agosto de 1936, Tomasz Barcinski viveu com os pais na Polônia durante a II Guerra Mundial, quando ambos faziam parte da AK (Resistência Polonesa). Com o fim da guerra e a perseguição do governo comunista aos membros da AK, se mudam para o Brasil em 1947. Tomasz estudou na Escola Nacional de Engenharia, Rio de Janeiro, especializando-se em engenharia econômica. Trabalhou em vários ramos como as áreas de tabaco e de cerveja até se aposentar em 1999. A partir disso, muda de profissão e passa a visitar os principais editores brasileiros, oferecendo a tradução de livros poloneses para o idioma português.

 

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Sobre Janary Damacena

Janary Damacena escreveu 104 posts neste blog.

Sempre interessado em narrações fantásticas e de horror, apreciador de boa interpretação e defensor da regra de ouro.

Comments

  1. Ótima resenha, Damacena! O mercado editorial tem andado em falta ultimamente em questão de inovação literária e os livros do Andrzej vieram bem a tempo. Foram eles que me impulsionaram a voltar a ler depois de um longo recesso de leitura. Obrigado.

  2. Eu não conhecia as histórias do Andrzej antes de ver o jogo The Witcher. Aí fui atrás das referências e acabei chegando nos textos que li sem grandes expectativas e fui surpreendido ela qualidade. Não é a toa que chamam ele de “Tolkien do Leste Europeu” huahuahuahuahua grande sacada da Martins Fontes, agora falta publicar os outros quatros livros…

  3. Boa matéria, gostei de todos os contos, casa um com um ritmo. Lembrando que o primeiro conto, o bruxo, é o prólogo dos sete capítulos A voz da razão. E sim, cada capítulo A voz da razão tem ligação com a próxima história. E todos capítulos possuem uma tênue ligação, mais possuem.
    Essa nova visão que ele nos dá de antigas histórias conhecidas como branca de neve, bela e a fera é a do diabo são ótimas, é como se ele quisesse inventar uma origem obscura, original e com detalhes desses contos. É como falou um colega acima, O Sapkowsky me fez ter vontade de ler novamente após um longo período sem ler.

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