Reino da Escuridão Eterna – Parte III

No começo da tarde, o grupo de heróis seguiu de maneira um pouco mais vagarosa pelo caminho de volta até a vila da Torre Murq. O retorno deu a impressão de ser mais demorado, em parte pela chuva que tornava a cair mais vigorosamente desde a saída da ruína. Os pensamentos que cada um maturava dentro si, enquanto se mantinham na estrada pouco utilizada, era o que mais consumia o tempo da viagem. A quantidade de informações despejadas nas últimas horas, somada à ferocidade das palavras de Serter, fazia a mente dos aventureiros remoer os acontecimentos que os levaram até ali – e talvez nem mesmo eles pudessem esclarecer como se juntaram poucos meses atrás e agora se deparavam frente a um mal desconhecido e crescente, que precisa ser detido a qualquer preço.

Mesmo derrotando, aparentemente, o foco maligno que assolava a região, o clima opressor se manteve presente por todo o trajeto. E em nada ajudava a falta de conversa entre o grupo. O clérigo de Saint Cuthbert quase não abrira a boca desde que contou a respeito da missão dos Guardiões da Justiça, e seu semblante duro não os deixava esquecer nem por um instante. O bakluni limitara-se a comentar, brevemente, que desde muito jovem está ao lado dos Guardiões combatendo as forças do mal. Seu olhar pairava distante apontando que há muito mais além do que o religioso está interessado em fornecer aos novos companheiros.

– Você é mesmo bem caladão né? – Dispara o gnomo, ostentando seu sorriso costumeiro. Pouca coisa parece abalar o bom humor do svirfneblin. – Porque eu queria saber mais a respeito desse grupo de vocês que persegue cultistas demoníacos. É que fiquei curioso, sabe? De onde venho existe o Rei Branco que promove a morte e a destruição, com monstros e demônios que até me lembram algo do que enfrentamos há pouco. Acha que podem ter relação com o Rei Branco? – Matraqueou Fino, sem dar muitas oportunidades de esquiva ao clérigo.

Serter observou que a caminhada até a vila ainda tomaria um pouco do tempo deles, então decidiu não ignorar o pequeno.

– Perdoe se não expliquei muito sobre os Guardiões da Justiça. Temos uma missão quase fanática, cujo propósito é acabar com as criaturas das trevas, mas que não pode se deixar ser descoberta por outras pessoas que não entenderiam o que não podem compreender. Lutamos contra forças que a maioria das raças nem se lembra da existência, então é melhor nos mantermos em segredo, pois quanto menos o inimigo tiver informações sobre nós, mais descuidado será. E é aí que teremos uma chance maior de extirpá-lo deste mundo. – Diz de modo solene, antes de dar um meio sorriso na direção do gnomo. – Mas posso lhe garantir que entre as fileiras dos Guardiões há um svirfneblin assim como você. Surpreso por lhe chamar assim? Pois é, conheço sua raça e temos um corajoso gnomo que está organizando uma missão pelas profundezas para tentar conter o avanço do Reino Branco. Nossa rede de informações relatou que esse mal já está fazendo excursões à superfície. – explicou Serter.

Fino pareceu se alegrar com a notícia de outro de sua raça por ali, mas temeroso pelos avanços do Reino Branco. O pequeno mago sabe muito bem as atrocidades e carnificina causadas por esses demônios das profundezas. Levantando a cabeça, o gnomo pensou que talvez os Guardiões acabassem de ganhar um possível novo aliado.

Ao chegar à vila, a recepção não é muito mais animadora que a da noite anterior. Apesar disso, as pessoas viram o retorno do grupo como bom presságio, uma vez que foram os primeiros a sair para tão longe e regressar todos vivos. A primeira parada e destino óbvio é a taverna Wrafton, onde as pessoas os observaram com surpresa à medida que adentravam o salão pouco animado. Os olhos os seguiram durante todo o trajeto até a mesa vazia onde os aventureiros sentaram-se. E foi perceptível que muitos tinham interesse em ir até o grupo está e saber notícias de como está o mundo fora do cerco da vila, mas ninguém se aproximou.

Jake foi o primeiro a tomar alguma atitude, cutucar o gnomo para que animasse um pouco o local com alguma música. Fino, como nunca perde uma oportunidade para produzir música, pois-se a tocar, tarefa que é um grande prazer ao mago. Colocando sua flauta nos lábios, praticamente esquece-se do resto do mundo ao soar notas agudas e rápidas. Mas mais ágil é sua mão que conseguiu alcançar uma caneca de cerveja mesmo antes de a senhora Wrafton chegar até a mesa. Lentamente alguns sorrisos foram surgindo…

Pegando algumas moedas de uma pequena bolsa de couro, Dmitri convidou os companheiros para um pouco de bebedeira, enquanto apreciavam a música do companheiro miúdo. Apesar do princípio de diversão, o suelita baixou um pouco o tom de voz ao se voltar para os colegas.

– Bebam meus amigos, vamos aproveitar um pouco, pois antevejo que essa será a última refeição decente em muitos dias de viagem para o coração das trevas. – disse soturnamente o espadachim, que mal termina a frase e vê Ceoris se levantando com o copo na mão. – E aonde já vai nossa paladina? Bom, ficarei de olho, pois sempre que entramos em uma taverna ela se desgarra para ficar sozinha… talvez seja o costume na terra dura de onde ela vem, quem sabe?

Mas os comentários já não eram audíveis para a valorosa oeridi, que ainda trajada em sua armadura de batalha, caminhou a passos firmes e cabeça erguida até o balcão, onde a bela viúva Salvana Wrafton aguardava a menina Solphi ajeitar a bandeja de madeira com a comida paga por Dmitri.

– Acho que posso ajuda-las a diminuir o peso que será levado à nossa mesa, se puder pegar essa caneca de cerveja aqui. – Falou Ceoris, se mostrando mais agradável. A paladina sabia que seu jeito rústico causava certo receio em algumas pessoas. Consequências de uma vida jovem e recheada das agruras em batalhas incessantes nas Shield Lands. Entretanto, sabia também ser gentil e afável quando necessário. E aquele era um desses momentos. – Acho que conseguimos resolver o problema que assolava essa região, ou pelo menos, a parte mais imediata que afetava vocês. Heironeous nos guiou até a destruição de coisas malignas em catacumbas próximas daqui. E nesse meio tempo em que estivemos fora, alguma notícia digna de nota?

Mesmo antes de encarar Ceoris, a senhora Wrafton esboçou um sorriso. De olhos cerrados, ela se virou para responder à oeridi e, ao começar a falar, levantou as pálpebras, despindo os olhos castanhos que denotavam um brilho de alegria e esperança ao vislumbrar a guerreira.

– Posso me apressar em fazer um julgamento como esse, mas mesmo no pouquíssimo tempo em que você e seu grupo surgiram aqui na vila, muita diferença já pode ser vista. Mesmo a chuva que não para de cair já mostra sinais de que o céu vai clarear e alguns aqui já comentaram sobre isso. Espero não sermos vítimas de mais ataques. – comentou Wrafton, que levantou a bandeja já repleta do pequeno banquete. – Fora a elfa esquisita, como era mesmo seu nome? Ninaran, isso! Ela foi a única a sair da vila além de vocês.

Com isso, a mulher se afastou graciosamente para levar a comida até onde parte do grupo permaneceu sentado. Filetes de carne de bode assado são postas sobre a mesa com um pouco de pão já um pouco passado, além de queijo coalho e uma sopa de sementes cozidas com tempero.

– Fiquem com essa água, enquanto entorno umas canecas dessa cerveja escura para molhar a garganta. – Resmunga o também oerid Elizir. – Até que para o local, isso aqui é um verdadeiro banquete! – Gargalha o guerreiro enquanto enche a mão de carne.

Do outro lado da mesa, mais quieto que seu companheiro, Jake mordiscava um pedaço de pão enquanto estava de olho ao redor, sorrindo amigavelmente para todos pela taverna. Sua ascendência angelical pode ser extremamente benéfica para situações nas quais os humanos estão desacreditados ou com pouca fé. Sua aparência descomunal inspira a compaixão: mais alto que os grandes humanos, de olhos brancos sem pupilas, pele alva e lívida, e de cabelos levemente encaracolados num loiro claro.

Ao avistar o dono do moinho, Millen Alen, pai de Solphi, o clérigo o cumprimentou com um leve aceno de cabeça e tranquilamente o convidou a sentar com eles. E após um breve relato das aventuras desenroladas na antiga capela, o aldeão pareceu mais tranquilo.

– Negociei a venda do moinho com Eilian, o velho fazendeiro. Ele me deu uma carroça antiga para viajar, além de provisões que mantinha estocada e algumas moedas. Não é grande coisa, o moinho vale muito mais que isso, mas os tempos são outros. Levarei a menina para longe daqui. Estamos com tudo pronto para sair amanhã cedo. Muito obrigado por toda ajuda, temos uma dívida eterna com vocês. – Confessou Alen.

Com objetivo de averiguar como a noite segue, além de evitar os perigos de sair já no fim do dia e ter de montar acampamento na floresta, os aventureiros decidiram passar uma última noite na vila da Torre Morq. Sem que nenhum evento perturbasse a vila, a manhã chegou tranquilamente, apesar de a chuva fria retomar o ímpeto dos primeiros dias desde que chegaram à região. Para desgosto de Elizir, que acorda mais cedo que os outros para arrumar a carroça e preparar os cavalos. O guerreiro reclamou e amaldiçoou a água que caía sem parar, algo que lhe ajudava a fazer o trabalho metódico para que foi contratado. Então, bem cedo na manhã seguinte, alguns poucos habitantes observaram a partida dos heróis.

Com a viagem seguindo para a cidade de Shandalanar, os aventureiros foram traçando a melhor rota possível baseados no mapa que receberam em Lorrish, mas a chuva logo ampliou sua ferocidade para uma tempestade maior do que já vista pelo grupo até aquele momento. Nitidamente, a cada passo em direção à cidade, mais furioso se tornava o temporal que deságuava sobre eles. Da mesma forma, o clima esfriou bastante e com uma velocidade impressionante. Um leve nevoeiro se formou como se nuvens de vapor subissem do solo para atrapalhar a visão mais longa que alguns metros à frente, o que dificultava ainda mais a jornada.

O caminho seguia através da floresta, com tenuidade branda e árvores esparsas proporcionalmente, o que fez com que as brumas subissem até quase a copa das árvores, e ganhassem cada vez mais espaço em imagens que sugeriam um grande animal abocanhando sua presa. Nem mesmo a chuva conseguia cortar o paredão formado pela névoa, e em alguns momentos era possível ver apenas a branquidão no horizonte sendo delimitada pelas nuvens negras que brilhavam ocasionalmente, quando os céus destilavam raios e trovões.

O clima, cada vez mais opressor, e a permanente vigília contra ataques, somava negativamente ao cansaço ao qual os heróis estavam submetidos, o que começou a interferir no humor, elevando o nível de estresse entre seus eles. Os níveis de tensão durante aquela quase uma semana de cavalgada perante o ambiente hostil só não trouxeram maiores prejuízos porque os religiosos do grupo atuaram de maneira incisiva para aplacar os efeitos perversos. Com magias frequentes e palavras de confortantes.

Ao passar pelas primeiras fazendas, a comitiva compreendeu ter chegado até os limites rurais de Shandalanar, e que em mais um dia ou dois poderiam avistar os portões da cidadela. Entretanto, a visão que tiveram das colheitas e do completo abandono pelos locais onde passaram, sugeria que algo terrível ocorreu por ali. Fazendeiros não renunciavam a suas terras se não estivessem correndo perigo e, ali, o plantio havia sido largado por meses.

A imagem era desoladora.

E com o fim daquele dia se anunciando, as brumas tomaram uma coloração esbranquiçada e de tons amarelados. Por isso, quando formas estranhas começaram a se projetar indefiníveis por entre o nevoeiro, o clima de alerta chegou ao máximo. Os cavalos assustados relinchavam constantemente e, ás vezes, refugavam em determinados trechos. Com armas em punho, a guarnição esperava um possível ataque a qualquer momento.

De repente Ceoris estanca em seu cavalo e vira-se completamente para o lado esquerdo da estrada no exato momento em que sobras cortavam a bruma na direção da carroça. Sua espada conseguiu desviar algo arremessado, até que seu cérebro entendesse que nada fora jogado de dentro da névoa, mas as próprias sombras se movimentam habilidosamente. Mais dessas criaturas avançaram de vários pontos diferentes, cercando completamente os aventureiros.

Dmitri, que viajava já à porta da carruagem, instantaneamente pulou para fora de forma a acertar uma das criaturas espectrais, que não emitiram som algum quando acertadas. Com uma pirueta precisa, Dmitri se lançou a alguns passos de distância daqueles seres, mas não conseguiu escapar dos braços que se alongavam misticamente até ele, transpassando sua carne sem causar ferimento aparente, apesar do congelante toque da morte que o suelita sentiu. Como defesa imediata, o nobre bruxo disse as palavras mágicas que lhe foram ensinadas pelas fadas de sua terra, e uma onda de fogo envolveu a sombra, que dissipou no ar.

Pendurado pela janela da carroça, Fino observava a movimentação de Dmitri e teve a ideia de disparar uma torrente de fogo em direção a três criaturas sombrias que estavam engajadas com os clérigos. O ataque rápido ocorreu de maneira poderosa, e quando as chamas saíram de deus dedos buscaram a presença inimiga consumindo toda a área à frente, poupando apenas o curto espaço onde Jake e Serter estavam, mas uma das sombras permanecia bruxuleando entre as brumas.

Nesse momento Serter caiu envolvido por uma das criaturas que tentava sufocá-lo. Jake foi mais rápido e faz sua espada reluzir contra a ameaça, desferindo golpes sucessivos que terminam por libertar o colega. Mas novas criaturas continuavam surgindo e o clérigo de Pelor invocou suas forças de luz para ampliar os seus poderes contra as sombras.

Por vários minutos o combate seguia parecendo que os atacantes conseguiriam sobrepujar as forças do grupo de heróis, mas a força numérica não foi páreo para o poderio da comitiva, que mesmo recebendo muitos ferimentos não se entregava ao desespero. Assim, o combate finalizou tão rápido quanto começou, sem que ao menos os aventureiros pudessem compreender contra o que estavam lutando.

Pouco adiante os heróis já vislumbraram os portões abertos de Shandalanar. A cidade se mantinha ao fim de uma breve caminhada e parecia aguardá-los, mas o nevoeiro guardava muitos mistérios e perigos, mais do que parecia a curta distância.

Foi Ceoris que se lembrou dos avisos de uma conspiração na cidadela, que poderia esconder um Mal maior. Por isso e pelos perigos imediatos, ficou decidido que passariam a noite em uma casa de fazenda próxima dali. Era o melhor a fazer antes de se jogar às incertezas do destino que procuravam.

Leia o glossário para compreender alguns termos e ler os capítulos anteriores dessa aventura.

Sobre Janary Damacena

Janary Damacena escreveu 107 posts neste blog.

Sempre interessado em narrações fantásticas e de horror, apreciador de boa interpretação e defensor da regra de ouro.

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