Você leu o seu RPG?

Nos últimos dias surgiu um meme que agitou a comunidade – J R R Tolkien jogando RPG e muito desanimado sobre a pobre descrição de um mestre de jogo, que parece meio perdido na própria ambientação que criou. Paralelamente retorno aos meus papos com o Rafão Araújo e, sem sentir, entramos no mesmo tópico. A conversa com meu amigo e o meme, me levaram a refletir mais sobre algo que estava matutando a muito tempo: MUITOS mestres de RPG no Brasil não possuem o hábito de LEITURA!

Essa minha afirmação pode parecer sem sentido, e até um cadinho maluca, mas se observar um pouco, perceberá que não estou tão doido assim. Em um país onde a proporção de leitura entre os habitantes é quase nula, os mestres refletem esse mesmo mal. Muitos podem estar argumentando, “somos NERDs”, “GEEks”, whatever! Mas convenhamos que somente saber o sobrenome do Anakin e como é danoso soltar uma fireball em uma dungeon, isso não demonstra a cultura que adquiriu na leitura.

Vivemos um período em que podemos adquirir vários tipos de informações de formas distintas e, no caso de muitos, a leitura é a última fonte a se recorrer. Quanta vezes em nossos grupos de whatsapp ou comunidades em redes sociais vemos, com frequência, pessoas pedindo “resumos”, dicas das questões mais simples possíveis sobre determinado CORE. Mas não me espanta esse tipo de prática quando temos “formadores de opinião” que vendem a ideia que é possível mestrar uma campanha de determinado RPG lendo em quarenta minutos somente o necessário de um livro de trezentas páginas. Principalmente se estiver lendo um livro do John Wick, sinto lhe dizer que falhará miseravelmente nessa tarefa!

Imagem relacionadaMas qual o motivo desse catártico texto? Além de eu estar de férias e sem nada para fazer? A intenção é nos levar a uma simples reflexão. Cara, quer mestrar RPG? Leia! Quer jogar com a rapaziada uma campanha supimpa? Leia!

– Mas leio o que? Você pode me perguntar… Eu respondo: Qualquer coisa que fizer sentido e que, no mínimo, vai te dar um vocabulário e saídas mais bacanas para aquela situação naquela taverna.

Seria legal assistir aquela série, citar aquele jogo de PS4 que você gostou, mas sinceramente, para alguém que trabalha na área da educação e humanas (eu mesmo) – não existe nenhuma dica mais instrutiva que uma boa leitura! Leonardo da Vinci afirmava que todas as artes eram belas e importantes, mas aquelas que eram efêmeras não tinham tanta força de mudança e reflexão, quanto aquelas que levavam a um movimento maior interno. Ao jogar SKYRIM você pode absorver coisas bem interessantes sim, mas ao ler uma página do livro do NEIL GAIMAN sobre mitologia nórdica, você vai mover certas partes do cérebro que sequer foram ativadas em um jogo. Mídias onde somos mais receptivos e nos demandam menos trabalho de imaginação são mais efêmeras! Ou seja… Assistir aquela cena do filme ANIQUILAÇÃO onde a personagem se depara com mais um flashback do passado pode te influenciar, mas ler a descrição do JEFF VANDERMEER de como eram feitas as luzes e reflexos do farol te dará muito mais munição! Assista LOVE, DEATH + ROBOS, mas ela fará bem mais sentido se você tiver dado uma boa lida em NEUROMANCER ou DUNA.

E agora vai mais uma dica polêmica! Leia e releia TODO o livro que gostaria de mestrar! Faça várias fichas de personagens! Pegue um emulador de mestre como o MYTHIC e teste jogadas com esses personagens, chame uma galera amiga! Não mais que dois jogadores… Teste esse novo livro… Comece uma campanha mais curta, que pode se tornar, quem sabe, em uma bem longa… Após as sessões de jogo RELEIA o livro. E no meio disso tudo, quando estiver bem seguro, assista uma stream sobre esse RPG! Pode acontecer de assistir uma jogatina onde o mestre não está tão seguro das regras (leu o livro em quarenta minutos) e pode estar fazendo bobeira. Principalmente se ele estiver sendo “pago” para promover certo jogo que está em certo financiamento coletivo. E atenção! Amo STREAMS! Participo de algumas… Tem uma galera muito boa, fazendo coisas do balaco baco, logo, esse aviso não é para esses! TE AMO CRÔNICAS DA MEIA NOITE!  TE AMO CÂMARA OBSCURA!

Resultado de imagem para 7th sea rpgE com um tempo, se tiver o delicioso trabalho de fazer isso, verá o quanto é bacana mestrar determinado jogo com segurança e sabedoria. E verá como as sessões fluem muito mais. E cuidado! Jogos “preparação zero” não querem dizer LEITURA ZERO, mesmo por que você pode se assustar ao perceber que alguns desses jogos necessitam de maior leitura que outros…

+PAx…

Sobre Tiago Rolim

Tiago Rolim escreveu 3 posts neste blog.

Comments

  1. Muito bom, realmente a falta de leitura é algo que infelizmente esta na realidade tanto de mestres como de jogadores. No mais espero que a perspectiva citada aqui mude a visão de alguns deles.

    1. Muito obrigado pela resposta Marcelo! E realmente essa é a idéia com esse artigo! Tomara que dê certo!

      1. E vou além: Nem precisa ser de fato uma leitura voltada pro cenário que vc vai narrar (Claro, é melhor se for), pois a organização narrativa, a aquisição de novas palavras, vai ser útil da mesma forma .E nada impede de uma grande sacada de uma história de terror poder de inserida num jogo de Super Heróis, por exemplo.
        Valeu!

  2. É isso aí, mestre. Eu mesmo sou um dos que lê pouco. Porém sempre leio todo o livro do RPG antes de mestrar.

    Tanto que levei semanas pra ler todo o Castelo Falkenstein e to levando semanas pra ler o Dragon Age. Aliás, esses dois são um misto de literatura com regras.

    E é realmente impossível pegar todo o jogo numa primeira leitura, e também sem ter testado ele antes. Fui mestrar Espadas Afiadas e Feitiços Sinistros, que é um sistema bem simples e cujo livro é curtíssimo, e foi impressionante a quantidade de regras que deixei pasaar batido, hehe.

    1. Continuamos lendo e tentando Daniel! Esse é o “trabalho” de um mestre! Sem muita pressão e mais diversão!

      1. Uma dica de leitura bem legal pra quem lê pouco são os livros da editora “jovem nerd” que são basicamente aventuras de RPG escritas. É verdade que os livros costumam ser grandes mas eu acho mais fácil do que ler algo denso como o senhor dos anéis. E não é necessário ler tudo de uma vez, tome seu tempo.

  3. Excelente, Tiago!

    Eu realmente acredito que ter mais referências engrandece o RPG, e as vezes a gente precisa reler o mesmo material com outros olhos e outra experiência mesmo, mais atento ou mais experiente, porque isso vai te mostrar novas faces da obra que você não reparava antes! Precisamos incentivar mais o hábito de leitura <3

  4. Curti muito o artigo. Conheço muitos mestres assim, muitas ideias, pouca leitura.

  5. Achei muito pertinente seu texto. Hoje realmente temos uma diversidade tão grande de histórias prontas em filmes e jogos que o padrão é ter sempre cenas fortes, cheias de combate e pouco enredo. No final é o que acaba acontecendo nas sessões de RPG.

    Eu tenho o hábito de criar meus cenários pensando na economia, recursos, alianças entre reinos e raças assim como fatos históricos para justificar certas posições políticas.

    Pode parecer muito mas na verdade criar todo esse enredo é o que mais me diverte. Fora que permite aos jogadores explorarem um ambiente rico em missões que nem sempre são resolvidas apenas na espada.

    Ficou longo mas foi porque realmente o texto me agradou bastante. Parabéns!

  6. Caí de pára-quedas, mas super feliz em saber que ainda existem pessoas compromissadas com o bom e velho RPG. Embora eu não faça mais parte dessa rotina, continuo a desejar sucesso a tudo e todos! Força e Honra, nobres aventureiros!

  7. Olha não sei como seu site apareceu no meu feed, mas que texto bacana. Apesar das girias que revelaram sua idade, quem se importa, foi muito bom ver que o bom RPG de mesa ainda existe. Joguei RPG nos idos de 90 onde tudo era estranho e xerox era a melhor fonte de livros, além da Dragão Brasil e digo realmente leitura é complicado. Hj os pseudo educadores não os reais, não sabem dicas de livros mas de sociólogos, pensadores contemporâneos e afins. Lembro que sempre fui dado a leitura e com RPG o desejo aumentou, e isso me deu um destaque enorme quando este que voz fala, um simples repositor, fez uma prova de promoção na firma e ao fazer uma redação, fez um pequeno Conto de Vampiro, onde dada era a descrição do cenário, dos sons a volta do personagem a imersão que o leitor experimentava que a aplicadores da prova queria saber detalhes e se tinha algo psicológico na estória. Devolvi apenas uma cara de estranheza e uma frase simples: “Não! É apenas um simples conto! E ganhei a promoção.

  8. Cara, senti-me um bosta. Me vi nessa situação, anos sem mestrar nada (e ler nada) e inventei uma mesa, que parada vazia. Tive vergonha, a leitura desse texto me deu saudades de jogar RPG, de mestrar mais precisamente, mas tb me deu ânimo pra ler coisas novas(e escrever). Já li Neuromancer, infelizmente Count Zero não prende tanto, mas é bom também.
    Vlw pelas dicas.

    1. Para deixar fluida a mesa, gosto de sempre resumir certas regras, então entendo o que dizem sobre mestrar em “40 minutos” , afinal vc precisa ter domínio sobre o sistema de combate em questão de “regras puras” para mestrar
      Agora para criar um mundo, experiência tanto em mesas de RPG quanto leitura de livros e fundamental
      Para alguém que não lê, criar uma organização politica, npc’s únicos, ou reviravoltas no roteiro que fogem do “aha, era eu na verdade que estava por trás de tudo” pode ser dificilimo, em oposto quem tem o hábito da leitura, tem infinitos exemplos de mundos para se inspirar, personagens que o cativaram e podem servir de molde, e diversas estruturas narrativas impressionantes. Alem do fato que a parte mais divertida torna-se aprimorar seu mundo fora da partida em vez do ato de mestrar de fato
      A propósito otimo artigo, e perdão o tamanho do comentário

    2. Não achas que a modinha “somos NERDs”, “GEEks” etc tá meio batida? Filmes Marvel&DC&$tar War$…viraram negocinhos da mídia sionista? RPG é pra passar tempo,. se o mestre é burro, toca o barco que dá na mesma. Com certeza o maior RPG seria uma 3a Guerra.

  9. Achei muito generalista. Vou começar uma campanha e estou lendo 8 livros sobre o cenário e mais 2 na cabeceira da cama, que não são diretamente dos mesmos autores mas que as temáticas podem ser exploradas. E nem vi esse meme. Deve ser só mais um meme em que a carapuça caí onde mais serve.

  10. Ler te dá uma grande ferramenta também na hora de improvisar. O que não é raro em qualquer aventura. Quem não lê, em geral fica sem saída, ou inventa desculpas meio bizarras para as situações voltarem ao status quo. Eu, em geral, tenho uma idéia de início e fim, o resto é com os jogadores

  11. Só acho que se você lesse tanto quanto insiste que os demais leiam você saberia usar vírgulas e estruturar frases corretamente

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